Sexo no casamento é sempre ruim! Será?

Sexo no casamento é sempre ruim! Será?

“Um dos problemas que preocupam muitos casais é a forma de conservar viva a atração física que a princípio os uniu. Mais cedo ou mais tarde – e com alguns maridos e mulheres acontece demasiadamente cedo – o magnetismo dos corpos parece perder muito da sua energia. Nenhum dos dois sabe explicar o que se passa, mas ambos ficam naturalmente angustiados pelo que parece ser o declínio gradativo da excitação sexual.

Durante algum tempo lutam para fazer renascer as sensações fortes que um dia dominaram as duas vidas. Quando tais esforços falham, provavelmente o casal aceita a vida sexual sem demonstrar interesse, como se fosse o desenvolvimento e consequência inevitável do casamento, e se conforma convencendo-se de que sucede o mesmo a todo mundo.

Isto parece de fato acontecer com a maioria, se não com a totalidade dos seus amigos. E como – pensam eles – podia ser de outra forma? Segundo o seu ponto de vista, um homem e uma mulher perdem depressa a excitação de fazer o que é proibido ou de descobrirem sexualmente algo de novo que não lhes é familiar. E depois – pensam eles –, até os casais mais felizes não podem esperar que as relações sexuais sejam mais que a repetição agradável de uma experiência já conhecida. Para os menos afortunados, deve ser então uma velha rotina sem novidades.

A crença de que com a perda da novidade o sexo perde forçosamente o poder de atingir a paixão é uma suposição que se generalizou. Como todas as suposições corre o risco de se transformar numa verdadeira profecia: o que alguém supõe que é verdade passa a ser inconscientemente verdade para esse alguém.  A pessoa interpreta tudo segundo as idéias preconcebidas e atua de acordo com elas. Conseqüentemente, os seus atos produzem o que ela esperava, confirmando sua crença de que tudo era inevitável.

Se, por exemplo, um homem acredita que as mulheres têm geralmente um entusiasmo limitado pelo sexo, sobretudo após o casamento, não ficará surpreso ao verificar que o comportamento da esposa corresponde a esse padrão. Pode fazer algum esforço esporádico para mudar a sua maneira de ser, mas, persuadido como está de que o comportamento dela é característico do sexo feminino, crê que a tentativa foi em vão e logo desiste. De novo uma mulher – desta vez sua esposa – provou que as presunções que ele tinha acerca das fêmeas e do sexo estavam certas.

Ele pode, evidentemente, estar certo com relação a sua mulher. A sua personalidade, educação, experiência sexual anterior – ou a ausência dela – e as suas próprias crenças e suposições pode ter-se combinado para criar uma pessoa com desejos sexuais inibidos. Por outro lado, a aparente ausência de entusiasmo dela pelo sexo pode ter uma explicação completamente diferente. Ela pode estar reagindo a deixa que o marido lhe dá sem saber, idéias que indicam que ele não gostaria de vê-la demonstrando forte apetite sexual e que de fato ele não gosta de mulheres sexualmente livres.

Adaptando seu comportamento ao que ele quer, pode estar simplesmente tentando agradar-lhe, fortalecendo os laços do casamento, sendo a espécie de mulher que ele parece respeitar. Ironicamente, o marido nunca imaginará que a desilusão sexual que sofre é em grande parte sua própria responsabilidade.

Em certos casos, uma falsa suposição dá origem a outra, como aconteceu a uma esposa que tinha sido criada com a convicção de que, se uma mulher se torna atraente e acessível, pode estar certa de que qualquer homem vai aproveitar ao máximo a oportunidade. Essa idéia errada levou-a por várias vezes a insinuar-se sedutoramente para o marido. Umas vezes deu resultado, outras não. Todavia, os insucessos preocuparam-na porque, “sabendo” que os homens estão sempre prontos para o sexo, a falta de interesse do marido significava forçosamente que, ou não tinha atrativos para ele, ou ele não se comportava como os homens em geral, ou estava interessado por outra mulher.

Encontrou por acaso um antigo namorado no liceu e, num impulso, agiu da mesma forma encorajadora que agia frente ao marido. O homem reagiu como ela esperava. Para ela, isso foi a prova de que qualquer homem estava disposto a ir para a cama com uma mulher atraente e livre – e, portanto, queria dizer ainda que faltava qualquer coisa a marido para ser um homem ou que faltava a ela qualquer coisa como mulher. As suas suposições impediram-na de compreender que poderia haver muitas outras explicações e, a menos que explorasse essas possibilidades e exprimisse ao marido os seus receios sinceros a fim de que pudessem estudar a situação, continuaria a proceder segundo as suas convicções erradas – e a pôr em jogo o casamento.

Parafraseando um velho ditado: de boas intenções o inferno está cheio.

Isto não é menos verdade quando alguém faz suposições sobre si próprio. Um exemplo clássico é o da mulher que, após umas tantas experiências sexuais em que o seu corpo quase não vibrou, decidiu que era frígida. Mas, de fato, existem inúmeras razões – fisiológicas, psicológicas e ocasionais – que podem ter contribuído para agravar o seu problema. Nessa altura, antes que a imagem negativa que criou de si própria se enraíze em demasia, a sua indiferença pode remediar-se facilmente. Mas, convencendo-se de que é realmente “frígida” – atribuindo a si mesma esta classificação pejorativa e sem significado –, aumenta o seu receio e angústia, e também a possibilidade de vir a ser desnecessariamente muito infeliz.

Devido ao fato de o sexo ser um assunto muito pessoal e porque muitas pessoas – especialmente durante a juventude, fase mais impressionável da vida – se sentem tão vulneráveis e inseguras em relação à sua própria sexualidade, raramente existe significativa troca de idéias sobre o assunto. O silêncio, a evasão ou a mentira estão na ordem do dia, e falsas suposições inquestionáveis tornam-se a base que rege o casamento de uma infinidade de homens e mulheres.

À luz deste fato, não é de estranhar que haja tantos divórcios e que tantos casamentos continuem intactos.

Quando a informação acerca do sexo torna-se acessível ao público, a sua veracidade é na maioria das vezes bastante duvidosa. O que é apresentado como fato objetivo é em geral tendencioso e ocasionalmente deturpado pela subjetividade de quem está informando. No passado, esta subjetividade era caracteristicamente virtuosa e moralizadora, principalmente segundo o púlpito. Hoje, a subjetividade tem sido a do rebelde anticultural, a do supercaixeiro viajante do sexo.

O que se faz necessário é a compreensão do comportamento sexual baseada num conhecimento de fatos verificáveis, onde tais fatos existam; na familiaridade com as idéias sobre sexo e a natureza humana que, conquanto não provadas cientificamente, tenham o apoio de especialistas com experiência clínica e de pesquisas nesse campo; e na aceitação sexual de si próprio e auto-responsabilidade como considerações finais.

Porque existem três elementos que contribuem para a função sexual – conhecimento, satisfação e escolha -, ou seja, elementos de interligação e mútuo estímulo. Saber é uma coisa; ficar satisfeito com aquilo que se sabe é outra; escolher o que convém a cada um é o outro dado da questão.

Escolher, fazer perguntas e saber a verdade sobre o sexo é uma opção pessoal. Avaliar as respostas é uma necessidade pessoal. Ficar satisfeito com o que se aprende e utilizar o que se sabe para o estabelecimento de relações sexuais duradouras é um assunto que não tem limites.” (…)

 

Robert J. Levin – 1974 – Prefácio do Livro “O Vínculo do Prazer” de Masters & Johnson

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